Embora toda a gente esteja de acordo em que deixar de fumar é o mais saudável e sensato, sugerimos responder às perguntas: O que perdes se deixares de fumar? O que é que te trazia? Por que motivos deixas?
Parece estranho, mas compreender, legitimar e ser compassivo com a parte de ti que quer fumar pode ajudar-te a deixar. Por isso te perguntamos: Qual foi a motivação inicial para começares a fumar?
Podemos distinguir entre a motivação para ligar: com outras pessoas, com as sensações, com o prazer, com a recompensa, com uma faceta mais atraente de ti mesmo; e a motivação para desligar: do ambiente, de uma tarefa, do stress, de um mal-estar emocional, do sofrimento, da família, ou do trabalho.
Quando se procura a desconexão, muitas vezes quer-se gerar um espaço próprio através do cigarro.
Também pode ser que se procure preencher um vazio. Consumir significa encher, adquirir, e é por isso que frequentemente se consome para mitigar uma sensação interna de falta, de vazio. Ou então, pode-se começar a fumar para parecer mais interessante ou mais adulto ou para se rebelar.
Como vês, pode haver diferentes motivações por detrás do tabagismo, e podem ser muito pessoais e subjetivas.
Se sentes que ainda estás indeciso sobre se começar, ou não, uma abstinência, recomendamos que faças um balanço, no qual anotes, numa tabela de 4 células, os benefícios que sentes que obténs ao fumar (1.) e ao estar abstinente (2.), e as desvantagens que associas ao fumar (3.) e à abstinência (4.). Este exercício pode ajudar-te a clarificar a relação que tens com o tabaco, a tomar uma decisão, e a procurar alternativas para obteres os benefícios que sentes que o tabaco te traz.
Na avaliação entre os motivos a favor de fumar e os motivos para deixares, é preciso garantir que os motivos para deixares têm mais peso, e que são motivos teus, não alheios. Caso não o sintas assim, talvez estejas numa fase prévia, e devas dar mais espaço e tempo a esse balanço.
Além disso, podes começar a distinguir as motivações dos diferentes cigarros que fumas ao longo de uma semana, já que nem todos os cigarros se fumam pelos mesmos motivos: porque o corpo te pede, como automatismo ou hábito, para sustentar um mal-estar, como recompensa, descanso ou prémio, ou como um pequeno espaço para ti mesmo, para saíres da tua rotina, para pareceres mais velho…
No entanto, quando há uma dependência, costuma acontecer que a motivação do consumo se desvincula. Isso significa que já não é necessário que surja a motivação que esteve no início do tabagismo (ligação, desconexão, preencher um vazio, parecer mais velho...), para que esse consumo ocorra, uma vez que este se reproduz sem necessidade de motivação.
Se sentes que o teu balanço pende para a abstinência, é importante que saibas que, por vezes, vive-se uma sensação de perda e de luto quando se deixa de fumar. O luto é uma experiência psicológica e emocional que responde a uma situação vivida como uma perda, e cada um pode vivê-lo de uma forma diferente. Pode parecer contraditório, porque na realidade desejas tirar o tabaco da tua vida, mas recordemos que isso significa que há uma parte de ti que sente que o tabaco lhe trazia algo, e está bem ouvir essa parte também, em vez de a negar.
Para atravessar o luto, recomenda-se recordar o que é que procuravas no tabaco, como e quando entrou na tua vida, se há algo de bom que te tenha trazido, se há anedotas ou situações curiosas em que te recordes com um cigarro na mão; mas também que penses por que queres afastar-te dele.
Faz parte deste processo expressar as emoções associadas que podem ser de qualquer tipo: tristeza, pela perda; medo, pelo que virá; raiva, pelas consequências sofridas, etc.
Para avançar num luto, é preciso permitir essa experiência psicológica, não apenas castigar e demonizar o teu "eu" fumador. Permitir os sentimentos implicados nestas fases facilitará que os possas atravessar e integrar e, finalmente, avançar. Pelo contrário, inibir estes conteúdos pode promover o estagnação ou o retrocesso.
Nesse sentido, os rituais de despedida como uma forma de digestão emocional são um bom preditor do sucesso do processo. Com eles podes ancorar psicologicamente a transição para a nova fase da tua vida e incidir no pano de fundo psicológico da dependência.
Há investigações qualitativas que indicam que, se o luto for elaborado, permitido e tornado explícito através de uma carta de despedida ao tabaco, o compromisso com e o bom prognóstico da abstinência aumentam (mais informação no capítulo "O Dia D"). Inclusive, propõe-se que a carta seja partilhada em voz alta com outras pessoas do teu meio ou que se encontrem no mesmo processo. Trata-se de um exercício simbólico, e cada um pode pensar noutros rituais de despedida que lhe sejam confortáveis.
Pode parecer estranho que demos tanto espaço à despedida, se, na realidade, o que se deseja é afastar-se o quanto antes do cigarro. Também é verdade que há pessoas que não sentem essa perda ou luto e que podem omitir esta parte.
A justificação destas propostas reside no facto de que a relação pessoa-tabaco, sobretudo se tiver sido prolongada, pode tornar-se uma relação complexa. Em alguns aspetos pode ser semelhante à relação que possas vir a ter com outras pessoas, e construída com base em ingredientes subjetivos que podem ser trabalhados, se isso te ajudar no teu propósito.
Quanto às razões pelas quais o deixas, fazemos-te a pergunta: por que agora e não antes?
Provavelmente tens muito claros os motivos para deixar de fumar: os benefícios para a saúde, económicos, nas relações, etc.
Mas escolheste este momento preciso e pode ser útil saber porquê, tendo em conta que isso te ligará à tua motivação pessoal. E, como já vimos, para superar uma dependência é preciso ser parte ativa da mudança.